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Aeroméxico 498: Choque no Céu (Arquivo Jetsite)

A trágica história do aeromexico 498


A área da terminal aérea da cidade de Los Angeles, Califórnia, é uma das mais congestionadas do mundo. Além do tráfego gerado pelo monumental aeroporto de LAX International, há ainda os movimentos dos aeroportos de Burbank e Long Beach, bem como de um punhado de aeródromos de uso executivo, como Van Nuys, por exemplo. Some-se a isso a presença de bases aéreas militares nas proximidades e fica fácil entender que os céus na principal cidade do sul da Califórnia estão sempre cheios.



Como se não bastasse, as diferenças de tipos de equipamentos e distintas missões adicionam um fator de risco: aeronaves de baixa performance dividem os céus com jumbos, caças supersônicos, velozes turbohélices e jatos executivos. A despeito de tudo isso, os céus ao redor da cidade não haviam presenciado nenhuma colisão aérea, muito embora, em inúmeras ocasiões, aeronaves tenham inadvertidamente se aproximado em demasia, o que em aviação recebe o nome técnico de "Near Miss" - traduzida livremente para uma "Quase Colisão". Essa imaculada folha corrida de vôos concluídos com segurança chegaria a um trágico fim numa límpida manhã de verão.

Faltava pouco para o meio dia. Sol quente e céu sem nuvens imperavam no dia 31 de agosto de 1986 sobre o sul da Califórnia. Procedia da capital Mexicana, com escalas em Guadalajara, Loreto e Tijuana, o voo 498 da Aeroméxico. Operado por um Douglas DC-9-32, matrícula XA-JED, o voo 498 havia deixado o México por volta de 11h20 e mantido o nível 100 na curta etapa do voo que tinha por destino o Los Angeles International Airport - LAX. A bordo, viajavam 58 passageiros e seis tripulantes. Este era e ainda é o mais importante mercado para a companhia mexicana, que une as duas cidades com mais de 10 vôos ao dia.

As condições de voo perfeitas podem ter levado o proprietário do Piper PA-28-181 Archer, matrícula N4891F, a decidir decolar, por volta de 11h47, da cidade Torrance com um plano de voo visual para Big Bear City, California. Seja como for, o piloto era experiente e sabia que voar na terminal de Los Angeles dependia da observância estrita da operação dentro dos corredores de voo visual, claramente identificados em cartas de navegação. É chegada a hora de entrar no cockpit do DC-9 para companhar os últimos momentos do voo 498 da Aeroméxico.

Cap-RDO: Transmissão de rádio do Comandante.
Cap: Comandante dio vôo 498.
F/O: primeiro-oficial.
Coast APP: Controle de área Coast.
APP: Controle de aproximação de LAX.

Desastre com o Aeroméxico Voo 498

11h41:21 Cap-RDO: Coast Approach, bom dia, aqui é o Aeromexico 498, cruzando 10 mil pés.
11h41:27 Coast APP: Aeromexico 498, Coast Approach, bom dia, entendido 10 mil, proceda direto para Seal Beach e El Toro, altímetro 2996.
11h41:35 Cap-RDO: Direto Seal Beach, altímetro 2996.
11h43:40 Coast APP: Aeromexico 498, cruze 10 milhas a sudeste Seal Beach a 7 mil pés e mantenha altitude.
11h43:49 Cap-RDO: 10 milhas, sete mil, Aeromexico 498.
11h44:54 Cap-RDO: Aeromexico 498 descendo para sete mil pés.
11h44:58 Coast APP: Aeromexico 498, roger.

A tripulação do voo 498 trabalhava muito nesta fase da operação. A consulta das cartas de aproximação, as constantes mudanças de proas, velocidades e configuração da aeronave, somadas à torrente de informações despejadas na fonia pelos controladores de solo, faziam desta fase do voo uma das mais trabalhosas. Os dois pilotos mexicanos, experientes e acostumados à voar para Los Angeles, mantinham toda a concentração nos instrumentos da aeronave, com pouco tempo para olhar através dos visores frontais para a parte externa da aeronave.

Além disso, como não deixa de ser corriqueiro acontecer neste aeroporto, preparavam-se para uma eventual mudança de pista, ocorrência relativamente comum em LAX, conforme fica patente na mensagem seguinte:

11h46:15 Cap: As pistas são 24 direita e esquerda.

Até mesmo em função disso, o primeiro-oficial sintoniza o sistema ATIS, Automatic Terminal Information System, uma gravação constantemente atualizada e difundida em freqüência dedicada, usada pelas tripulações para tomar ciência das condições operacionais nos aeroportos. A gravação registra o som da gravação do ATIS invadindo os alto-falantes da cabine do jato.

11h46:46 CAM: Ouve-se na cabine o som da gravação do ATIS de LAX.

11h46:59 Coast APP: Aeromexico 498, contate freqüência de aproximação de Los Angeles em 124.9.

11h47:03 Cap-RDO: 124.9, bom dia.

11h47:04 CAM: Cessa o som da freqüência do ATIS de LAX.

11h47:05 Coast APP: Tenha um bom dia.
11h47:23 F/O: O que disse o controle?
11h47:24 Cap: Sete mil e pistas 24.
11h47:28 Cap-RDO: Centro Los Angeles bom dia, Aeromexico 498, uh livrando nível um mil. Er, correção, sete mil pés.
11h47:34 F/O: Fica aí de prontidão.
11h47:37 Cap: Ok, homem.
11h47:39 APP: Aeromexico 498, controle de aproximação de Los Angeles. Livrando Seal Beach 320, espere vetoração ILS para pista 25 esquerda e aproximação final, você tem a informação Uniform.
11h47:46 Cap-RDO: Afirmativo, pista 25 esquerda.
11h47:49 CAM: O microfone de cabine capta um sinal de alerta.
11h47:50 F/O: 220 para a pista, a chegada. (ininteligível).
11h49:52 Cap: Obrigado.

11h50:05 CAM: (Voz feminina ininteligível).

11h50:08 APP: Aeromexico 498, reduza velocidade para 290.
11h50:12 Cap-RDO: Entendido, para 290, Aeromexico 498.
11h50:46 APP: Aeromexico 498, você tem tráfego (na posição) 10 horas, uma milha e rumando norte, altitude desconhecida.
11h50:50 Cap-RDO: Ciente, 498.

11h51:03 APP: Aeromexico 498 reduza velocidade para 190, então desça e mantenha seis mil pés.
11h51:09 Cap-RDO: 190, descer e manter seis mil, Aeromexico 498.
11h51:20 F/O: (ininteligível).
11h51:30 Cap: Obrigado.
11h51:44 APP: Aeromexico 498, qual a sua velocidade na presente?
11h51:48 Cap-RDO: Ah, Aeromexico 498 uh, qual a velocidade que o senhor deseja, estamos reduzindo de. de 290 para 190.
11h51:57 APP: Okay, mantenha sua presente velocidade, senhor, teremos uma mudança, aguarde.
11h52:00 Cap-RDO: Ok, manteremos um nove. um nove zero.

Nove segundos depois desta transmissão, os planos de voo das duas aeronaves convergiram em um encontro mortal, a 6.560 pés de altitude. O estabilizador horizontal esquerdo do DC-9 foi abalroado pela parte superior do Piper. A colisão matou instantaneamente o piloto do monomotor e seus dois ocupantes, decapitados numa fração de segundos pela superfície aerodinâmica do jato, arrancada no impacto. Descontrolado, o Piper despencou verticalmente, caindo sobre a quadra da esportes de uma escola. Por muita sorte, ninguém foi atingido pelos destroços da aeronave após sua colisão com o solo. A mesma sorte não teriam os moradores do subúrbio de Los Cerritos, sobrevoado naquele exato momento pelo DC-9.

11h52:10 Cap: Ah merda, não pode ser!

O comandante da aeronave mexicana perdeu instantaneamente o controle do DC-9. Com sua cauda parcialmente demolida, em uma fração de segundo, o jato virou sobre seu dorso e iniciou um gradual mergulho para a morte. O comandante nada podia fazer. Mesmo exercendo toda a sua força para puxar para si o manche de seu pássaro ferido, o nariz do DC-9 apontava resolutamente para o solo, num mergulho cada vez mais pronunciado e veloz. Justamente a superfície responsável por fazer subir ou descer o nariz da máquina havia sido arrancada na colisão. Além disso, a assimetria aerodinâmica fez com que o DC-9 girasse sobre seu eixo longitudinal, ficando com seu ventre prateado exposto à clara luz da manhã. Mergulhando invertido, o DC-9 literalmente despencava do ensolarado céu da Califórnia. A sensação de impotência e terror que tomou conta dos pilotos interrompeu qualquer comunicação com o solo. Todo o esforço dos pilotos visava apenas tirar o DC-9 do mergulho praticamente vertical.

Alheio ao drama que se desenrolava, o controle de aproximação ainda enviou uma última mensagem para o jato mexicano:

11h52:18 APP: Aeromexico 498, aguarde para ILS runway 24 direita, freqüência do localizador é 108.5.

11h52:32 Nesse exato instante, pouco mais de 20 segundos após o impacto com o Piper, o CVR acusa o fim da gravação e da vida dos 64 ocupantes do jato.

A paz reinante no subúrbio de classe média alta de Cerritos foi subita e tragicamente interrompida nesse exato instante. Ao bater em solo, o DC-9 explodiu, seus destroços arrasando completamente cinco casas. Além destas, outras sete foram seriamente danificadas pelos destroços e pelo fogo que rapidamente alastrou-se no local. No total, faleceram na tragédia os três ocupantes do Piper, os 64 a bordo do DC-9 e quinze moradores do local da queda. Oitenta e duas vidas perdidas em menos de meio minuto.

O NTSB - National Transportation Safety Board - organismo responsável pela investigação do acidente, concluiu que o principal fator causador da tragédia foi o desvio do Piper matrícula N4891F que acabou adentrando no espaço aéreo de LAX. Como fator contribuinte, o piloto do Piper não manteve qualquer contato via rádio com o controle de LAX. Que, para complicar, via-se ocupado pela presença de outro tráfego espúrio na rota do DC-9, tráfego este relatado ao comandante do DC-9 as 11h50:46. Outro fator contribuiu para o acidente foi o fato de que o Piper não era dotado de um transponder equipado com o modo Charlie, que ao menos poderia indicar aos radares em solo a sua direção e altitude.

Como historicamente acontece na aviação, foi graças à uma sucessão de pequenos erros, enganos e omissões que a segurança do sistema acabaria por ser aperfeiçoado. Após a divulgação do Relatório Final de Investigação da tragédia de Cerritos, novas medidas de segurança foram implantadas. A FAA - Federal Aviation Administration - determinou a partir de então a obrigatoriedade do uso, em todas as aeronaves comerciais empregadas regularmente nos Estados Unidos, do sistema TCAS - Traffic Alert and Collision Avoidance System, que alerta automaticamente a presença de tráfego potencialmente conflitante. Milhares de vidas já foram salvas pelo emprego do TCAS.

Além disto, a FAA determinou ainda que todas as aeronaves leves operando em áreas de tráfego denso nos Estados Unidos fossem equipadas com transponders mais modernos, capazes de operar no modo C. Desta forma, ainda que adentrassem inadvertidamente em espaço aéreo controlado, os radares de solo teriam condições de detectar sua presença e alertar aeronaves voando nas proximidades.

Estas foram duas grandes contribuições para a segurança global do sistema. Infelizmente, adotadas tarde demais para os ocupantes das duas aeronaves e para os habitantes de Cerritos.

Desastre com o Aeromexico 498 Air Crash

Desastre com o Aeromexico 498 Air Crash

Desastre com o Aeromexico 498 Air Crash

Desastre com o Aeromexico 498 Air Crash

Desastre com o Aeromexico 498 Air Crash


Fonte: Este relato foi extraído do extinto site Jetsite, do grande Gianfranco "Panda" Beting, da seção Blackbox, com fins de não se deixar perder o conteúdo daquele fabuloso site, nossa principal fonte de referência no mundo da aviação nos anos 2000. O texto é do Panda, algumas fotos e vídeos colocamos a parte, para contribuir com mais dados e informações.

AS 261 - Ainda Estamos Voando! (Relato de acidente aéreo da Blackbox do Jetsite)

Relato do desastre com o Voo AS 261, da Blackbox do Jetsite


No dia 31 de janeiro de 2000, o vôo 261 da Alaska Airlines, operado pelo McDonnell Douglas MD-83 de matrícula N963AS, caiu no Oceano Pacífico a 2.7 milhas ao norte da ilha de Anacapa, California. Os dois pilotos, três comisários e 83 passageiros tiveram morte instantânea. O vôo 261 havia partido por volta de 14h30 do aeroporto Lic. Gustavo Diaz Ordaz (PVR) em Puerto Vallarta, México, com destino ao aeroporto de Seattle-Tacoma International (SEA) e escala prevista no San Francisco International (SFO), em San Francisco, California. Cruzando normalmente a 31.000 pés, por volta das 15h45, o piloto automático repentinamente desligou-se quando o compensador do estabilizador horizontal falhou, colocando a aeronave num abrupto mergulho. A tripulação conseguiu controlar o aparelho. Assustados, buscaram encontrar uma causa para o ocorrido e depois de tentarem com os manuais de bordo, chamaram o departamento de manutenção da empresa, comunicando o problema enfrentado. A gravação da caixa-preta, recuperada das profundezas do Oceano Pacifico, mostra os últimos 30 minutos de voo, durante os quais os pilotos tentaram de tudo para controlar o jato. A gravação começa com a resposta da manutenção da empresa aos pilotos do Alaska 261.

Acidente da Alaska Airlines Voo 261

CAP-RDO: Transmissão de rádio do Comandante
F/O-RDO: Transmissão de rádio do Primeiro Oficial
CAP: Comentário (interno) do Comandante
F/O: Comentário (interno) do Primeiro Oficial
CMRA: Comissária de bordo
CAM: Cockpit Area Microphone: Sons captados pelos microfones internos da cabine de comando do MD-80.
CAWS: (Central Aural Warning System) - Alarmes e/ou sinais de aviso captados pelos microfones na cabine de comando.
PA: (Public Address System) Comunicado interno dos pilotos aos passageiros.
LAX: Controlador do aeroporto de Los Angeles - Air Route Traffic Control Center
LAX-MX: Manutenção da Alaska Airlines em Los Angeles
SEA-MX: Manutenção da Alaska Airlines em Seattle

Início da gravação: 15h49:49.3

15h49:50 - SEA-MX: Verificamos e não há nenhuma pane reportada nos nossos registros.
15h49:57 - CAP-RDO: E não há nada no livro de bordo (logbook) tampouco.
15h50:40 - SEA-MX: Dois meia um, manutenção.
15h50:42 - CAP-RDO: Prossiga, manutenção.
15h50:44 - SEA-MX: Vocês querem alternar para Los Angeles ao invés de seguir para San Francisco? Alguma razão para isto?
15h50:54 - CAP-RDO: Bom, está chuvoso e ventando em SFO, acho que é mais prudente prosseguir para um aeroporto onde a pista esteja seca.

A manutenção aceita a decisão e os pilotos continuam consultando os manuais de operação para descobrir o que mais pode ser tentado. O vôo prossegue controlado pelo piloto automático.

16h07:51 - LAX-MX: 261, manutenção.
16h07:53 - CAP-RDO: Prossiga, manutenção.
16h07:54 - LAX-MX: São vocês que estão com problemas de controle, certo?
16h07:58 - CAP-RDO: Afirmativo.
16h07:59 - LAX-MX: Ok, já tentaram puxar as alças e os comandos da direita?
16h08:03 - CAP-RDO: Olha, já tentamos de tudo aqui, mas se você tiver alguma dica sobre algum circuit breaker, adoraria saber.

Nos minutos seguintes os pilotos conferem suas ações com os mecânicos de terra do Aeroporto de Los Angeles. Nada de concreto é descoberto. Os pilotos do Alaska 261 decidem tentar outros procedimentos para retomar o controle da aeronave.

16h09:13 - CAP: Vamos tentar isso.
16h09:14 - CAM: Som de clique.
16h09:14 - CAP: Isso vai desligar...

O Gravador registra sons de duas batidas surdas, seguidas do acionamento do estabilizador horizontal.

16h09:18 - CAP: Puta merda!
16h09:21 - CAP: Sentiu isso? Que coisa!
16h09:24 - F/O: O que você está fazendo?
16h09:25 - CAP: Eu, ah... desliguei... eu...

16h09:25 - CAWS: Som de alerta de Altitude.

16h09:26 - CAP: ...só piorou.

O microfone começa a captar sons que indicam vibração da aeronave, cada vez mais fortes.

16h09:31 - CAP: Você está estolando!
16h09:33 - CAP: Não... Você solte isso! Solte isso!

A aeronave entra num mergulho. Os pilotos lutam para controlar o MD-80, que afunda com seu nariz apontado para as águas azuis do Oceano Pacífico.
16h09:42 - CAP: Vamos usar o speedbrake!
16h09:52 - F/O: Ok!
16h09:52 - CAP: Me ajude! Me ajude a trazer de volta!
16h09:54 - F/O: Ok!
16h09:55 - CAP-RDO: Centro, do Alaska 261. Estamos mergulhando!
16h10:01 - CAP-RDO: Perdemos controle vertical, perdemos controle de pitch.

16h10:01 - CAWS - Som de alerta de excesso de velocidade começa a soar e prossegue pelos 33 segundos seguintes.

16h10:05 LAX: Alaska 261, repita por favor.
16h10:06 - CAP-RDO: Passamos do nível 260, estamos num mergulho vertical... Não, quase num mergulho vertical, perdemos controle vertical da aeronave.
16h10:20 - CAP: Me ajude! Se conseguirmos reduzir a velocidade, talvez consigamos sair dessa!
16h10:28 - CAP-RDO: Estamos a 23.000 pés...
16h10:33 - CAP-RDO: Ok, conseguimos recuperar o controle.
16h10:34 - F/O: Não, não conseguimos recuperar não!
16h10:37 - CAP: Ok.
16h10:37 - LAX: Qual a altitude vocês precisam manter?

Os pilotos não respondem à pergunta feita pelo controle. Eles estão totalmente concentrados em retomar o comando da aeronave.

16h10:45 - F/O: Guarde os speedbrakes!
16h10:46 - CAP: Não, parece que está ajudando!
16h10:51 - F/O: Fodeu!

16h10:53 - CAWS: Som de alerta de altitude.

16h10:55 - CAP: O nariz quer abaixar mesmo!
16h10:58 - F/O: Ok.
16h10:59 - CAP: Melhor não mexer nisso!
16h11:04 - F/O: De acordo.
16h11:04 - LAX: Alaska 261, informe sua condição?
16h11:06 - CAP-RDO: Alaska 261 a 24.000 pés, praticamente estabilizado.
16h11:10 - CAP-RDO: Estamos recuperando controle, vocês.
16h11:15 - CAP-RDO: Poderiam nos dar um bloco de altitude entre 20 e 25,000 pés?
16h11:21 - LAX: Alaska 261, autorizado voar livremente entre 20 e 25.000 pés.
16h11:27 - CAP-RDO: Alaska 261 aceito, vamos manter monitoramento nesta freqüência.
16h11:31 - F/O: Deixe eu tentar voar um pouco?
16h11:33 - CAP: Ok.
16h11:33 - F/O: Como está? Ficou mais difícil ainda?
16h11:33 - CAP: Não sei dizer... A adrenalina está correndo solta... Está bem difícil controlar.
16h11:38 - F/O: Está mesmo.
16h11:39 - CAP: Ok.
16h11:43 - F/O: Seja lá o que for que fizemos, melhor não tentar isso novamente.
16h11:44 - CAP: É, mergulhou com todo nariz embaixo, tudo pra baixo.
16h11:48 - F/O: Mais difícil que no primeiro mergulho?
16h11:50 - CAP: Bem mais. Estamos muito pior agora.
16h11:59 - CAP: Acho que está no batente, tudo embaixo. Será que dá pra piorar ainda mais? Se diminuirmos a velocidade? Provavelmente... Vamos reduzir para 200 nós e ver o que acontece?
16h12:16 - F/O: Ok. Vamos ter de baixar tudo, flaps e slats.
16h14:04 - LAX: Alaska 261, avise se precisar de algo.
16h14:08 - F/O-RDO: Ok, ainda estamos tentando resolver a situação.

16h14:12 - PA: Senhores passageiros, comandante falando, estamos tendo dificuldades de controle mas já estamos resolvendo isso. Vocês podem ver Los Angeles à nossa direita e é para lá que vamos. Estamos muito ocupados resolvendo estes problemas e assim que consigamos recuperar alguns sistemas, vamos rumar para Los Angeles, acredito que em mais 20 ou 30 minutos estaremos no solo.

16h14:39 - CAP: Ok, vamos acionar os speedbrakes. Adiantou alguma coisa?
16h14:53 - CAP: Reduza e vamos ver no que dá.

O comandante desliga o piloto automático e avisa o primeiro oficial.

16h15:02 - CAP: Eu tenho o comando.
16h15:04 - LAX: Alaska 261, controle.
16h15:19 - F/O-RDO: Los Angeles, Alaska 261, estamos a 22.500 pés, estabilizador travado, estamos mantendo altitude com muita dificuldade. Nossa intenção é pousar em Los Angeles.
16h15:36 - LAX: Alaska 261, Centro LA, autorizado Los Angeles da presente posição direto para Santa Monica, direto para Los Angeles e, ah, precisa de uma altitude menor ou qual a sua intenção?
16h15:54 - CAP: Deixe eu falar, deixe eu falar.
16h15:56 - CAP-RDO: Centro, Alaska 261, preciso descer para 10.000 pés, mudar minha configuração, ter certeza que consigo controlar o jato e gostaria de fazer isso sobre a baía aqui, se possível.
16h16:07 - LAX: Ok Alaska 261, afirmativo, aguardará aí.
16h16:11 - F/O: Não, vamos reconfigurar nesta altitude e depois descer.
16h16:11 - CAP: O quê?
16h16:39 - F/O-RDO: Precisamos de um bloco de altitude entre 28 e 17.000 pés, Alaska 261.
16h16:45 - LAX: Ok, autorizado, contate Centro Los Angeles em 135.5, eles terão outras instruções para vocês.
16h16:56 - F/O-RDO: Ok, qual o altímetro de Los Angeles?
16h16:59 - LAX: Altímetro LA é três zero uno oito.

Nesse momento o comandante chama pelo interfone uma comissária e dá intruções sobre os procedimentos que serão adotados a seguir.

16h17:02 - CAP: Quero todo mundo sentado e amarrado...
16h17:04 - CMRA: Ok.
16h17:04 - CAP: ...porque agora vou tentar controlar o avião.
16h17:06 - CMRA: Ok.
16h17:07 - CAP: Vou ver se consigo retomar o controle, ok?
16h17:09 - CMRA: Ok. Nós ouvimos uma grande explosão aqui atrás.
16h17:11 - CAP: É, nós também ouvimos por aqui.
16h17:12 - CMRA: Ok.
16h17:12 - CAP: Acho que o estabilizador quebrou.
16h17:13 - F/O: Vocês ouviram algo aí atrás?
16h17:13 - CMRA: Sim.
16h17:17 - CMRA: Eu não quis chamar vocês antes.
16h17:18 - CAP: Não, não tem problema.
16h17:20 - CMRA: Tá bom. Mas outra comissária acha que vocês precisam vir aqui dar uma olhada.
16h17:52 - CAP: Agora não, tá? Obrigado.

O comandante volta a cuidar da pilotagem do MD-80.

16h17:54 - CAP: Por favor, estenda os slats.
16h17:55 - F/O: Slats armados.
16h17:56 - CAM: Som similar à alavanca de slat/flap sendo movimentada.
16h17:58 - CAP: Agora vamos voar na base da tentativa e erro.

Nesse instante, o centro de controle de Los Angeles avisa aeronaves voando nas proximidades dos problemas enfrentados pelo Alaska 261. Duas aeronaves são contactadas: um Aero Commander, de prefixo N50DX, e um EMB-120 Brasília da empresa regional Skywest, vôo 5154.

16h18:02 - LAX: Commander ah, cinco zero delta x-ray, tráfego a uma hora, quatro milhas, rumo oeste, a dezoito mil pés, descendo para dezessete mil pés, um MD-80 da Alaska, você o avista, um pouco mais alto e à sua direita?
16h18:06 - N50DX: Avistado.
16h18:07 - LAX: Mantenha tráfego visual, aeronave com problemas de controle.
16h18:09 - N50DX: Ok, manterá avistado.

Na cabine de comando do MD-80, os dois pilotos começam a reduzir a velocidade e acionam os flaps, inicialmente baixados para a posição de 11 graus. O MD-80 começa a apresentar novamente dificuldades de controle.

16h18:49 - CAP: Vamos trimar o nariz para cima e depois ver se ele desce sozinho.

16h18:54 - CAWS: Som de alerta de Altitude soa pelos 34 segundos seguintes.

16h18:56 - F/O: Usar isso de novo? Não acho uma boa idéia.
16h19:01 - CAP: Já está no batente.
16h19:04 - F/O: De acordo com esta indicação, não está não.
16h19:07 - F/O: O trim de estabilizador pode estar, a não ser que algum circuito.
16h19:11 - CAP: Pode ser...
16h19:11 - F/O: Pode ser que deu merda no circuito de novo.
16h19:14 - F/O: Olha, vamos tentar pousar assim mesmo, se estiver sob controle.
16h19:16 - CAP: Você acha? Então vamos direto pra Los Angeles.

16h19:21 - CAM: O microfone de cabine registra um ruído surdo, abafado.

16h19:24 - F/O: Sentiu isso?
16h19:25 - CAP: Sim.
16h19:29 - CAP: Ok, acione o slat. Ah, mas que merda... Não consigo...
16h19:31 - F/O: Aciono?
16h19:31 - CAP: Sim.

16h19:32 - CAM: Som de dois cliques das alavancas de slat/flap sendo acionadas.

16h19:36 - CAP: Aaahnn!

Seis décimos de segundo depois do acionamento, os microfones de cabine começam a captar sons altíssimos, consoantes com a perda de controle da aeronave. Grunhidos dos pilotos, sons de objetos batendo contra as paredes da cabine: o MD-80 escapa definitivamente de controle. A cena é observada pelo Aero Commander N50DX, que chama o controle de Los Angeles, alarmado.

16h19:39 - N50DX: Los Angeles, cinco zero delta x-ray, aquela aeronave entrou em mergulho!
16h19:43 - LAX Control: Ok, entendido, está mergulhando. Skywest 5154, o MD-80 está na posição duas horas, a dez milhas, temos um reporte de outra aeronave que diz que a coisa está feia, você avista a aeronave?
16h19:55 - Skywest 5154: Sim, eu presumo que está feio mesmo. O nariz está muito para baixo, descendo muito rapidamente.

Dentro da cabine do comando do Alaska 261, a situação é caótica. O MD-80 não apenas inicia um mergulho acentuado, como entra em parafuso, e se põe a girar sobre seu eixo longitudinal. Os pilotos, desesperados, tentam retomar o controle da aeronave, mas mal conseguem se comunicar em meio à cacofonia de alarmes e objetos voando pela cabine. Eles agora tentam, em vão, segurar a aeronave e gritam entre sí:

16h19:43 - F/O-RDO: Mayday!
16h19:49 - CAP: Empurre e gire, empurre e gire.
16h19:54 - CAP: Ok, estamos invertidos... E agora vamos tentar...
16h20:01 - LAX Control: Alaska 261, está ainda conosco, senhor?
16h20:03 - CAP: Dê pedal.
16h20:04 - CAP: Empurre, empurre, empurre... coloque o lado azul (do céu) para cima!
16h20:14 - CAP: Empurre!
16h20:14 - F/O: Estou empurrando!
16h20:16 - CAP: Ok, dê pedal, dê pedal, pedal esquerdo!
16h20:18 - F/O: Não consigo alcançar!
16h20:20 - CAP: Ok, dê pedal direito, pedal direito!

A cena é horrível. O MD-80 mergulha invertido na direção do mar, em plena luz do dia, banhado pelo sol californiano. O piloto do Aero Commander, testemunha impotente da tragédia que se desenrola à sua frente, chama o controle de Los Angeles e informa sobre o que vê:

16h20:20 - N50DX: Aeronave de cabeça para baixo, controle!
16h20:22 - LAX: Ok, grato pela informação, girando em frente à você, entendido. Skywest 5154, ainda avista a aeronave?
16h20:25 - Skywest 5154: Avisto. Definitivamente, está fora de controle.

O MD-80 mergulha invertido rumo ao Oceano Pacífico. As forças que agem sobre seus ocupantes tornam cada movimento difícil. Os pilotos tentam recuperar o controle, mas as tentativas não surtem efeito. As suas vozes denotam grande esforço físico, as frases saem entrecortadas pelo esforço e tensão enfrentadas.

16h20:25 - CAP: A... Ainda estamos voando? Ainda estamos voando? Chame o controle e diga o que estamos fazendo.
16h20:33 - F/O: Deixe-me tentar.
16h20:35 - CAP: Caralho!
16h20:38 - CAP: Temos que segurar... Pelo menos ainda estamos voando. Invertidos, mas ainda voando!
16h20:39 - Skywest 5154: Controle, a aeronave está mesmo... Está invertida!
16h20:42 - CAP: Merda!
16h20:44 - F/O: Meu Deus!
16h20:46 - LAX: OK, faça o que você puder, Skywest 5154 e nos mantenha avisados.

16h20:49 - CAM: Som de estol de compressor começa a ser captado pelo microfone de cabine e prossegue até o final da gravação. Nesse mesmo instante, o som dos motores sendo reduzidos também fica gravado.

16h20:54 - CAP: speedbrakes!
16h20:55 - F/O: Acionado!
16h20:56 - CAP: Aaah, aqui vamos nós!

16h20:57.1 - Fim da gravação do CVR - Cockpit Voice Recorder. O MD-80 bate na água e se fragmenta em milhares de pedaços.

Dois segundos depois, o piloto do Aero Commander chama o centro Los Angeles e num tom resignado, informa:

16h20:59 - N50DX: Controle, ele acaba de bater na água.
16h21:03 - Skywest 5154: Ah sim, controle, ele acaba de bater na água, ele ah, ele ah, bateu na água, ele ah, ele caiu.
16h21:09 - LAX: Ok.
16h21:11 - N50DX: Para marcar a posição, estou passsando bem no través do ponto de impacto agora, cinco zero delta x-ray.

A análise do acidente, a cargo do NTSB- National Transportation Safety Board do governo americano, apontou um culpado: a perda de controle de pitch (movimento de arfagem) resultante de uma falha durante o vôo do sistema de compensação do estabilizador. A falha foi causada por insuficiente lubrificação da peça. O departamento de manutenção da Alaska Airlines havia solicitado uma ampliação nos intervalos entre lubrificações do sistema, por períodos de tempo maiores do que aqueles recomendados pelo fabricante. A extensão foi aprovada pela Federal Aviation Administration (FAA). O diretor de manutenção da empresa foi demitido após o acidente. Os 88 ocupantes da aeronave perderam suas vidas.

Fotos do Acidente da Alaska Airlines Voo 261

Acidente do Voo 261

Desastre na Alaska Airlines

Restos do voo 261


Fonte: Este relato foi extraído do extinto site Jetsite, do grande Gianfranco "Panda" Beting, da seção Blackbox, com fins de não se deixar perder o conteúdo daquele fabuloso site, nossa principal fonte de referência no mundo da aviação nos anos 2000. O texto é do Panda, algumas fotos e vídeos colocamos a parte, para contribuir com mais dados e informações.