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China Airlines - Dois Raios que Caíram no Mesmo Lugar

Acidentes e Desastres Aéreos Relatos

A Airbus Industries conquistou a liderança dentre os construtores aeronáuticos mundiais com inegáveis méritos. Vista com desconfiança na sua estréia com o Airbus A300 em 1974, a empresa paulatinamente foi se firmando no mercado. A entrada em serviço do A310, em 1983 e, principalmente, do A320, confirmou incontestavelmente: a Airbus veio para ficar. E com essa novíssima geração de jatos de fuselagem convencional, os moderníssimos A320, chegava mesmo para disputar a liderança. Posição que conquistaria quase 15 anos depois.



Não foi com apenas com doses industriais de ousadia que a Airbus chegou onde queria. A bordo de seus aviões, o fabricante europeu acreditava que apenas a mais moderna tecnologia seria capaz de fazer a diferença, de estabelecer uma vantagem competitiva e trazer economia real aos operadores.

Os próprios A320 inauguraram os joysticks em substituição aos manches. Estabeleceram um novo patamar de tecnologia, muito, mas muito mais avançado que seus concorrentes norte-americanos.

A história da aviação comercial mostra que jamais houve significativo avanço tecnológico sem que se pagasse um preço alto: vidas humanas. Os Comet caíam por fadiga metálica, uma lição aprendida pelo preço de mais de 100 vidas. Os 727, para muitas empresas os primeiros jatos para rotas curtas, cobraram centenas vidas até que seus comandantes se acostumassem com suas aproximações velozes.

Os exemplos são muitos. A altíssima tecnologia incorporada aos cockpits dos jatos da Airbus não foge à regra. Em rápida sucessão, três A320 foram perdidos por erros de pilotagem. Os acidentes foram atribuídos à pouca familiaridade de seus tripulantes com os novos procedimentos de administração de controle de voo. Os pilotos simplesmente não compreendiam o funcionamento dos avançados computadores de bordo.

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Este Blackbox comprova a exceção da regra. Dois acidentes praticamente idênticos, envolvendo idênticas aeronaves de uma mesma companhia, em apenas 4 anos. Você vai ver como duas tripulações da China Airlines, empresa aérea de Taiwan, morreram e mataram por não entenderem os princípios básicos de operação dos sistemas dos Airbus A300-600R que pilotavam. No ar, mais este Blackbox.

Acidentes na China Airlines com Airbus A300

Nagoya é uma das mais importantes cidades japonesas, a 260 km ao sul de Tokyo. No dia 26 de abril de 1994, o aeroporto da cidade, um dos mais movimentados do Japão, receberia o voo CI 140, procedente de Taiwan. Operado pela China Airlines, o voo de pouco mais de duas horas e meia de duração era operado naquele final de tarde pelo A300-622R de prefixo B-1816. Entregue à empresa taiwanesa apenas 3 anos antes, era uma aeronave moderníssima, com apenas 8.572 horas de voo.

Encarregados de pilotar o jato estavam dois pilotos taiwaneses. O comandante era Wang Lo-Chi, 46 anos, 19 deles passados voando na força aérea de seu país. Tinha mais de 8.000 horas de vôo. Entrou para a empresa aérea em 1989, como co-piloto de 747, função que exerceu por quase três anos, até ser promovido para comandante de A300 ao final de 1992. O co-piloto era Chuang Meng-Rong, de 26 anos. Tinha apenas 1.600 horas (totais) tendo iniciado sua carreira como cadete na própria China Airlines. Era primeiro oficial de A300 há pouco mais de um ano. Era o próprio Chuang quem pilotava o jato na aproximação para Nagoya.

O primeiro oficial Chuang exemplifica bem o dilema que vivem as companhias aéreas dos chamados Tigres Asiáticos. Com o explosivo sucesso econômico dos países da região, o tráfego aéreo cresceu num ritmo avassalador, muito mais rápido que a própria capacidade dos países envolvidos em produzir pilotos. Empresas aéreas desses países, como a própria China Airlines, passaram a contratar estrangeiros para pilotar seus jatos. Mas tinham de pagar muito caro por isso, arcando com despesas adicionais para atrair profissionais experientes no exterior para seus quadros. Benefícios adicionais aos salários, como ajudas de custos de mudanças, bilhetes aéreos para retorno ao país de origem, pacotes de assistência médica e de educação para filhos, são alguns exemplos. Voam nesses países muitos pilotos brasileiros, egressos sobretudo da Vasp (a partir da crise da empresa de 1992) e da Varig (idem, a partir de 1994).

Para não ter de arcar com tantos custos extras, empresas como a China Airlines fizeram as contas e chegaram à conclusão de que seria mais econômico formar seus próprios pilotos. O problema é que jovens inexperientes como Chuang passavam rápido demais para as cabines dos jatos comerciais. É impensável, em empresas aéreas ocidentais, entregar o comando de um jato de 300 lugares para alguém com 1.600 horas totais de voo. Mesmo que monitorado por um comandante mais experiente como Wang, não se trata de prática aconselhável. Os acontecimentos a seguir mostrarão bem o porque disso.

Vamos acompanhar os minutos finais do A300 da China Airlines. Até a aproximação final, o voo transcorreu de forma absolutamente normal, tendo decolado de Taiwan as 17h53(horário de Nagoya). A bordo, 256 passageiros e 13 tripulantes: os dois pilotos e 11 comissários. Apenas 8 assentos na Dynasty Class (executiva) não estavam ocupados.

Chuang pilotava a aeronave e o comandante Wang operava o rádio, ajudando e monitorando o desempenho de seu primeiro-oficial. As 19h47, o Centro de Área de Tokyo autorizou o vôo CI 140 a iniciar a descida, saindo de sua altitude de cruzeiro (33.000 pés). Wang foi instruído a chamar o Centro de Área de Nagoya na freqüência de 125.7 MHz. Em seguida, foi transferido para o Centro de Aproximação em 120.3 MHz e autorizado a descer para 9.000 pés. O jato reportou ter recebido a informação Bravo no ATIS (Automatic Terminal Information Service) que repete continuamente, numa freqüência dedicada, as condições meteorológicas. Que por sinal era excelentes: ventos de 7 nós a 280º, temperatura de 20º e visibilidade de mais de 20km.

APP: Centro de Aproximação de Nagoya
TWR: Torre de Nagoya
Cap: Cmte. Wang
F/O: Primeiro oficial Chuang

Obs: o código de comunicações radiofônicas da China Airlines (callsign) é Dynasty.

APP: - 19h58:02 - Dynasty 140, desça para 6.000 pés, reduza velocidade para 200 nós.

Wang então executou o check pré-pouso, com Chuang respondendo corretamente. O cmte. Wang tratou de lhe explicar os procedimentos e de comentar sobre as particularidades de aproximações noturnas. Ao final, comentou com Chuang de forma a encorajá-lo:

Cap: Está contigo. Não precisa me perguntar nada. Você toma as decisões.
O Centro de Aproximação contato o vôo CI 140 e instruiu a aeronave a seguir diversos vetores, reduzindo velocidade e altitude, o que foi executado com precisão. O Airbus agora voava a 180 nós. A 14 milhas do marcador externo, o controle do vôo foi transferido para a freqüência da Torre de Nagoya em 118.7 MHz.

20h07:37 - Cap: Torre Nagoya, boa noite, Dynasty 140 em aproximação para pista 34.
20h07:42 - TWR: Boa noite, reporte no marcador externo, Dynasty 140.
Nesse instante, o Airbus foi sacudido por turbulência. Chuang então mostrou-se apreensivo com a possibilidade de encontrarem com turbulências provocadas pelo tráfego, (wake turbulences) ocasionadas pelo jato voando à frente deles.

20h08:35 - Cap: Bote os pés com firmeza nos pedais (controle do leme). Assim, ele não vai oscilar tanto.
20h08:41 - Cap: Ok, estamos no localizador, rumo de pista na marcação.
20h08:55 - Cap: Essa aí na nossa frente (observando uma aeronave). É melhor reduzir um pouco a velocidade.
20h08:59 - F/O: É. é um 747?
20h09:00 - Cap: Não sei, não consigo dizer. Mas é melhor reduzir a velocidade. Reduza para 170 nós. Se chegarmos muito perto, poderemos ser virados de ponta-cabeça!

Nos próximos minutos, o cmte. Wang dedicou-se a descrever técnicas de aproximação e pilotagem à baixa altitude e a noite. Chuang, no entanto, continuava nervoso:

20h11:20 - F/O: Entramos nela (wake turbulence) e no glideslope!
20h11:24 - Cap: Não há nada que possamos fazer. Há muitos aviões no tráfego.
20h11:34 - F/O: Então vou desligar o piloto automático.
20h11:35 - Cap: Ok. Voe no manual.
20h11:45 - Cap: Glideslope!
20h11:46 - F/O: Sim senhor. Altitude para arremetida é 3.000 pés.

No painel superior central, o primeiro oficial Chuang então selecionou a altitude de arremetida para Nagoya, 3.000 pés, segundos antes de atingir o marcador externo.

20h12:23 - Cap: Torre Nagoya, marcador externo, Dynasty 140.
20h12:26 - TWR: Continue aproximação, número um para pouso, Dynasty 140.
20h12:41 - F/O: Flaps 20!
20h12:56 - F/O: Trem de pouso! (baixar)
20h13:13 - Cap: Trem de pouso baixado, três verdes. (confirmado baixo e travado)
20h13:14 - F/O: Flaps 30-40, Velocidade de aproximação 140 nós, landing checklist por favor.
20h13:21 - Cap: Trem de pouso baixado e travado, três verdes, anti-skid normal, slats/flaps 30-40, spoilers armados, luzes de aproximação ligadas, landing checklist completo!
20h13:39 - TWR: Livre pouso pista 34, vento 290º com 6 nós, Dynasty 140.
20h13:49 - Cap: Tem um ventinho de través pela esquerda... Todas as luzes acionadas!

Dez segundos depois, a caixa preta registrou o som dos motores acelerando, no momento que o jato estava a 1.070 pés acima da pista. Naquele instante, Chuang havia desligado o autothrottle, que controla automaticamente a potência dos motores. Colocando sua mão esquerda sobre as manetes de potência, reduziu a potência dos mesmos.

Exatamente aí começou a seqüência de gestos que levaria ao desastre. Sem se dar conta, a mão de Chuang certamente puxou para trás, além das manetes, uma pequena alavanca que fica posicionada imediatamente à frente das próprias manetes. Nos A300, essa é a alavanca que aciona a máxima potência do motores, conhecida como TOGA switch -Take-Off / Go Around power.

Ao acionar a TOGA switch, Chuang deu uma ordem aos computadores para acelerar os motores ao máximo, o que fez com que o Airbus saísse da rampa de planeio ideal para pouso (glideslope). O jato começou a ganhar velocidade e levantar o nariz. Chuang imediatamente tratou de forçar a coluna do manche para a frente, de maneira a abaixar o nariz. No painel à sua frente, uma luz de advertência iluminou-se com a mensagem GO AROUND, o que imediatamente foi notado pelo cmte. Wang.

20h14:10 - Cap: Ei! Você acionou a alvanca de GO AROUND!
20h14:11 - F/O: (hesitante) Ahn, sim, sim, acho que acionei.
20h14:12 - Cap: Desligue! Você... o quê... Olhe, olhe para fora. Para fora!

Com a alavanca ainda acionada, o primeiro oficial Chuang empurrava o manche para a frente, tentando abaixar o nariz. Mas os computadores de bordo seguiam as ordens do TOGA switch, acelerando os motores e tratando de mover os profundores para levantar o nariz, desafiando as ações de Chuang. Máquina e Homem brigavam entre si. Como se tivessem nas mãos um cavalo indomável, os pilotos do Airbus já não mais controlavam a aeronave.

20h14:23 - Cap: Empurre! Empurre pra frente! Retarde as manetes!
20h14:29 - F/O: Uhhh. Muito alto...
20h14:30 - Cap: Ei! Você ainda está com o GO AROUND acionado. Ok, desligue agora, devagar. Mantenha sua mão no manche!

Apesar de Chuang acionar o trim (controle de subida e descida do nariz) várias vezes, o profundor continuava sendo comandado pelo computador para sua posição de menos 12.3º, o que fazia com que o Airbus ficasse com seu nariz para cima. Wang continuava gritando ordens para seu primeiro oficial, cada vez mais amedrontado:

20h14:41 - Cap: Empurre! Empurre pra frente! Mais! Mais!
20h14:42 - F/O: Sim!
20h14:44 - Cap: Empurre! Empurre mais! Ainda está com o GO AROUND acionado!
O nariz do Airbus continuava apontado para cima. Chuang instintivamente tratou de aumentar a potência dos motores.

20h14:49 - F/O: Comandante! Pilotos automáticos desligados! Eu ainda não consigo abaixar o nariz!
20h14:58 - Cap: Ah... então... LAND mode?

O cmte. Wang questionou se poderiam acionar esse botão, que configura o piloto automático para a manutenção da rampa de planeio, alinhamento com o ILS e até mesmo o arredondamento da aeronave antes do pouso, tudo feito automaticamente.

O A300 estava então a 570 pés acima do solo, sua velocidade e altitude decrescendo. Nesse instante, outra invenção da Airbus entrou em ação: o sistema de proteção de voo conhecido como Alpha Floor. Ele automaticamente detecta configurações anormais na aeronave e trata de corrigir essas discrepâncias de maneira a evitar uma configuração potencialmente desastrosa. Ao sentir que o jato perdia altura e velocidade, o Alpha Floor automaticamente aumentou a potência e levantou ainda mais o nariz do jato, para um ângulo de 21,5º. Ao mesmo tempo, na tela do FMA - Flight Mode Annunciator - a mensagem THR-L apareceu. Nesse instante, o comandante finalmente deu um basta e decidiu tomar para sí a pilotagem do Airbus.

20h15:03 - Cap: Ok! Está comigo, está comigo. Está comigo!

Assumindo o comando, Wang empurrou a coluna do manche completamente para a frente e reduziu a potência dos motores. O Airbus, sob o efeito do Alpha Floor, não reagiu e continuou a subir.

20h15:04 - Cap: (num tom nervoso de voz) Desligue! Desligue isso! (referindo-se ao que ele achava ser ainda a atuação do piloto automático). Co... Como é possível? O que está acontecendo aqui?

20h15:09 - F/O: (num tom de súplica) Desligue! Des...
20h15:11 - Cap: TOGA! (aplique potência máxima)
20h15:14 - F/O: Torre Nagoya, arremetendo!
20h15:18 - TWR: Ok, aguarde para mais instruções.

Naquele momento, a decisão do comandante de arremeter o Airbus era a única alternativa correta. Mas, sem entender direito o que acontecia, e certamente sob efeito de stress pelos caóticos segundos anteriores, o cmte. Wang aplicou potência máxima sem configurar corretamente a aeronave. Os flaps permaneceram em 40º (configuração de pouso) e não com os 15º que deveriam ser selecionados para a arremetida. Esta condição, somada à configuração dos profundores, apenas exacerbou o ângulo de inclinação do nariz para cima, que naquele instante chegou a 40º, quando o normal numa decolagem é ao redor de 12 ou 13º.

20h15:21 - Cap: (gritando, desesperado) Se continuar assim vai estolar!
20h15:26 - F/O: Rápido! Abaixe o nariz... Abaixe o nariz!
20h15:34 - Cap: Calma! Calma! Não me apresse!
20h15:35 - F/O: (gritando) Dê potência!

Soou então na cabine o alarme de estol e num instante, o Airbus efetivamente estolou. Sem potência suficiente nos motores e com o nariz erguido num ângulo de 40º, o jato parou de subir, sua velocidade horizontal praticamente zerou. De sua atitude cabrada, com nariz alto, o jato parou de voar e seu nariz afundou em um mergulho de 40º de inclinação abaixo da linha do horizonte. Oitenta graus de variação de atitude em apenas quatro segundos. Uma pavorosa montanha russa, já quase sobre a pista de pouso.

O enorme jato mergulhou rapidamente em direção ao solo. O cmte. Wang imediatamente puxou a coluna de comando para sí e reduziu potência. Nesse instante, o GPWS (Ground Proximity Warning System) soou na cabine de comando, sua lúgubre gravação de alerta enchendo os ouvidos dos dois confusos e aterrorizados pilotos:

20h15:37 - GPWS: Terrain! Terrain! (Terreno se aproximando)
20h15:37 - F/O: (gritando) Dê potência! Potência! Potência!

20h15:40 - Cap: Aaaaahhhh!
20h15:41 - F/O: Potência!
20h15:42 - Cap: (gritando) É o nosso fim!
20h15:43 - F/O: Potência!
20h15:44 - Cap: Aaahh!
20h15:44 - F/O: Potência! Potência!
20h15:45 - Fim da gravação.

O Airbus bateu no solo 100m à direita do eixo da pista 34, num gramado adjacente a pequenas construções usadas como depósito do próprio aeroporto. A parte inferior da fuselagem, próxima à cauda, foi a primeira parte do jato a tocar no solo, o que evidencia que o cmte. Wang reverteu a atitude de picada (nariz para baixo) do jato.

A aeronave explodiu instantaneamente. Em três minutos, os bombeiros do aeroporto chegaram ao local e imediatamente iniciaram o combate ao devastador fogo que tomou conta dos destroços. Estes se espalharam numa área relativamente pequena, de 140m X 60m, consoante com uma aeronave que se acidenta em estado de estol. A pronta ação dos bombeiros e a excelência dos serviços médicos japoneses garantiu um milagre naquela trágica noite primaveril em Nagoya: a retirada com vida de 16 passageiros, embora nove destes tenham falecido após darem entrada em hospitais da cidade. Ao final, o pronto atendimento das equipes de resgate garantiu a sobrevivência de sete passageiros, todos sentados próximos às asas do Airbus.

China Airlines Voo CI 140 Acidente

China Airlines Voo CI 140

CI 140 Air Crash Disaster


A história se repete

Por incrível que pareça, a tragédia de Nagoya repetiu-se num acidente praticamente idêntico, ocorrido quatro anos depois, em 16 de fevereiro de 1998: outro A300-600R (B-1814) da China Airlines; outra aproximação noturna, desta vez na própria base de operações da companhia, o aeroporto Chiang Kai Shek em Taipei, Taiwan.

As semelhanças são espantosas e não param aí. O voo CI 676, aproximava-se da pista 05L quando, após ter o pouso liberado pela torre, a tripulação desligou o piloto automático, por perceber que estavam quase 1.000pés acima da rampa ideal de planeio, o glideslope. Uma tentativa (também manual) de arremetida foi iniciada. A velocidade decaiu também para a faixa entre 100 a 150 nós. O nariz do B-1814 também ergueu-se para mais de 40º e a aeronave igualmente estolou.

Uma das únicas diferenças é que, neste acidente, a tripulação do A300 não conseguiu segurar o nariz da aeronave em seu mergulho pós-estol. O jato bateu inicialmente com o nariz no solo, explodiu e abriu uma cratera de 3 metros de profundidade. Igualmente à Nagoya, o jato caiu a poucas dezenas de metros da cabeceira da pista e, em outra notável semelhança, num ângulo de 30º em relação ao eixo da pista. Neste caso, porém, seus destroços atingiram casas próximas ao aeroporto, matando 6 pessoas em terra, além de seus 196 ocupantes.

Se no acidente de Nagoya a China Airlines já havia sido publicamente execrada, imagine então no caso do voo CI 676. O comandante do voo 140 foi citado especialmente por seu comportamento que feriu as normas mais usuais de disciplina e interação de tripulantes. Se num primeiro momento ele havia afirmado ao seu primeiro-oficial, muito mais novo e inexperiente que ele, que "Está contigo. Não precisa me perguntar nada. Você toma as decisões", na prática, após a ativação equivocada da alavanca de GO AROUND, por parte do primeiro oficial, deu-se exatamente o contrário. Não só o comandante Wang gritou uma série de ordens rápidas e conclusivas, como não assumiu o comando do Airbus, o que naquele instante talvez tivesse evitado a tragédia.

Vale lembrar que os níveis de segurança da China Airlines são muito ruins. Nos 20 anos anteriores ao acidente de Taipei, a compania havia perdido dois Boeing 707, dois Boeing 737, um A300, um 747-400 e mais seis turbohélices. Os dois acidentes com os A300, praticamente idênticos, mostram que muito precisaria ser feito para melhorar esse triste recorde.

Desastre no Voo 676 da China Airlines

Acidente no voo da China Airlines
Fonte: Este relato foi extraído do extinto site Jetsite, do grande Gianfranco "Panda" Beting, da seção Blackbox, com fins de não se deixar perder o conteúdo daquele fabuloso site, nossa principal fonte de referência no mundo da aviação nos anos 2000. O texto é do Panda, algumas fotos e vídeos colocamos a parte, para contribuir com mais dados e informações.

SR 111 - Céus Escuros (Acidente Swissair em 1998)

Jetsite - Relato do SR 111 Swissair


Há poucos dias, ainda no mês de setembro de 2005, no casamento de um amigo em comum, encontrei-me em São Paulo com Linda, querida amiga suíça e comissária da Swiss. Linda é uma pessoa especial: em primeiro lugar, porque ama o que faz. Além de fazer justiça ao seu nome, ela é casada com um grande amigo e fotógrafo de aviação, Pierre Rohr, que até bem pouco tempo era co-piloto de MD-11 na Swissair e hoje pilota os 747-400F da Cargolux.



Nossa conversa não poderia ser outra: aviões, aviões e aviões. O assunto acabou evoluindo até que entramos num tópico delicado: o acidente que ralataremos neste Blackbox, que vitimou um MD-11 da Swissair em 2 de setembro de 1998. Linda acabou falando do assunto naturalmente, com uma calma espantosa, em face do que ela acabara de me revelar: ela não apenas tinha muitos conhecidos no trágico vôo, como na verdade, estava mesmo escalada para trabalhar no SR111 entre New York JFK e Genebra, sua cidade natal, naquela fatídica noite. Quis o destino que ela trocasse sua escala: naquele fim de tarde, Linda encontrou no lobby do hotel em New York com os tripulantes que embarcariam horas depois no vôo 111. Ela deu adeus aos colegas sem saber que a despedida seria para sempre: nenhum dos 229 ocupantes do MD-11, matrícula HB-IWF, sobreviveu ao desastre, o mais grave da história da Swissair.

O vôo SR 111 da Swissair em 1998

McDonnell Douglas MD-11
McDonnell Douglas MD-11 da Swissair

Tudo parecia absolutamente corriqueiro: o jato decolou no horário de New York - JFK com destino a Genebra, um vôo de pouco mais de 9 horas de duração; a Swissair era indiscutivelmente era uma das melhores, mais sérias empresas aéreas do mundo, de reputação incontestável, sobretudo no tocante à manutenção; os jatos MD-11, então os mais modernos da frota, eram imaculadamente mantidos pelos laboriosos mecânicos suíços. Em pouco mais de 9 horas, o Atlântico Norte seria vencido e os Alpes suíços receberiam o majestoso trijato como milhares de outras vezes.

Dentro da cabine, os 15 profissionais que cuidavam dos 214 passageiros não podiam ser mais qualificados. A começar pelo comandante Urs Zimmermann, 49 anos, 9.300 horas de vôo, comandante na Swissair desde abril de 1983 e com 900 no comando do MD-11. Seu co-piloto, Stefan Loew, 36 anos, timha 2.800 horas de vôo sendo 220 no MD-11. Ambos eram profissionais reconhecidamente exemplares, tanto que acumulavam funções de instrutores na própria Swissair.

Tanto o aeroporto de partida como de chegada eram terreno conhecido dos dois profissionais. O HB-IWF, batizado "Vaud" em homenagem a um cantão suíço, era uma aeronave relativamente nova, com apenas 7 anos desde a entrega na fábrica. No momento do acidente, tinha 35.000 horas de vôo e 6.400 ciclos. Seu último check mais minucioso (D) foi em agosto de 1997. O último check B foi realizado em agosto de 1998.

As 21h18, aproximadamente 53 minutos depois da decolagem, enquanto o trijato cruzava a 33.000 pés, a tripulação notou um odor incomum na cabine de comando. Três minutos e meio depois, os primeiros sinais de fumaça foram percebidos dentro do cockpit. Começava aí o drama do SR111.

A transcrição a seguir mostra todo o conteúdo dos gravadores de cabine do HB-IWF. Equipado com um modelo do tipo mais antigo, que registrava apenas os 30 minutos finais de gravação, a transcrição começa pouco antes dos primeiros sinais de problemas. Os horários são locais e, apenas para referência, são GMT-3.

Transcrição da cabine


  • SR111 - 21h58:15 - Centro Moncton, Swissair 111 heavy, (denotando aeronave wide-body) boa noite, nível três três zero.
  • Centro Moncton 21h58:20 - Swissair 111 heavy, centro Moncton. Boa noite, reportes de turbulência leve em todos os níveis.
Uma grande quantidade de aeronaves tenta utilizar a freqüência, neste que é o grande horário de pico nas travessias transoceânicas no rumo leste. Uma das mensagens do SR111 é embaralhada pela fonia do vôo United 920. 
  • Centro Moncton - 22h14:12 - United nove dois zero heavy, centro Moncton. Boa noite, temos reportes de turbulência leve em todos os níveis.
  • SR111 22h14:18 - Swissair 111 heavy está declarando Pan Pan Pan. Temos fumaça na cabine de comando. Solicitamos retorno imediato para alguma alternativa conveniente... acho que... Boston?
  • Centro Moncton - 22h14:33 - Swissair 111 roger ... curva à direita ...uh ... confirme que deseja ir para Boston?
  • SR111 22h14:35 - Talvez Boston ... precisamos primeiro das condições de tempo para saber se iniciamos uma curva à direita aqui, Swissair 111 heavy.
  • Centro Moncton - 22h14:45 - Swissair 111, roger, desça para nível três uno zero. Ok para você?
  • SR111 22h 14:50 - Três uno zero, Swissair 111 heavy.
  • Centro Moncton - 22h15:03 - Swissair 111, centro Moncton.
  • SR111 22h15:06 - Swissair 111 heavy, prossiga.
  • Centro Moncton - 22h15:08 - Você prefere ir para Halifax?
  • SR111 22h15:11 - Standby!
  • SR111 22h15:38 - Afirmativo para o Swissair 111 heavy. Nós preferimos Halifax desde nossa posição atual.
  • Centro Moncton - 22h15:43 - Swissair 111 roger, proceda direto para Halifax, desça para nível dois nove zero.
  • SR111 22h15:48 - Nível dois nove zero para Halifax, Swissair 111 heavy.
  • Nesse momento, um 747 da British Airways, voando nas proximidades e na escuta da mesma freqüência, oferece ajuda ao Swissair 111:
  • BAW214 22h15:58 - E. ah. Swissair 111 heavy do Speedbird dois uno quatro, eu posso fornecer as condições de tempo em Halifax se você quiser.
  • SR111 22h16:04 - Swissair 111 heavy. Estamos colocando máscaras de oxigênio. prossiga com as condições em Halifax.
  • BAW214 - 22h:16:10 - Okay, informação três zero zero zulu: vento uno uno zero com nove nós (direção e intensidade do vento), uno cinco milhas (visibilidade horizontal), scattered (nuvens esparsas) no nível uno dois zero, broken no nível dois cinco zero, temperatura mais dezessete, mais doze, dois nove oito zero (pressão), câmbio.
  • SR111 22h16:29 - Roger Swissair 111 heavy , recebido, altímetro dois nove oito zero.
  • Centro Moncton - 22h16:36 - Swissair 111, autorizado para 10.000 pés e haaa. altímetro dois nove oito zero.
  • SR111 22h16:41 - Para 10.000 pés, altímetro dois nove oito zero, Swissair 111 heavy.
  • Centro Moncton - 22h16:52 - Swissair 111, pode fornecer a quantidade de combustível e o número de passageiros a bordo?
  • SR111 22h16:53 - Uh. aguarde para a informação.
  • Centro Moncton - 22h18:19 - Swissair 111 pode contatar o controle Halifax em uno uno nove decimal dois?
  • SR111 22h18:24 - Uno uno nove decimal dois para o Swissair 111 heavy.
  • Centro Moncton - 22h18:31 - Roger.
  • SR111 22h18:34 - Controle Halifax boa noite. Swissair 111 heavy livrando dois cinco cinco descendo para nível de vôo dois cinco zero no rumo de Halifax. Voando na radial zero cinco zero.
  • Controle Halifax 22h18:46 - Swissair 111, boa noite, desça para três mil pés, ajuste altímetro dois nove sete nove.
  • SR111 22h18:51 - Ah, nós preferimos manter oito mil pés, dois nove sete nove, até estarmos prontos para o pouso.
  • Controle Halifax 22h19:00 - Swissair 111. autorizado descer até 3.000 pés e permanecer em altitude de transição de sua escolha. Apenas informe sua altitude.
  • SR111 22h19:07 - Roger. Vamos para oito mil pés, entendido liberado a qualquer momento até três mil, manterei avisado.
  • Controle Halifax 22h19:14 - Okay. Posso vetorá-lo para a pista 06 em Halifax?
  • SR111 22h19:19 - Repita o vento, por favor?
  • Controle Halifax 22h19:22 - Okay, pista em uso em Halifax zero seis. Quer vetoração para a pista zero seis?
  • SR111 22h19:26 - Sim, vetoração para a pista seis seria bom, Swissair 111 heavy.
  • Controle Halifax 22h19:30 - Swissair 111, curva à esquerda, proa zero três zero.
  • SR111 22h19:35 - Curva à esquerda, ah, proa zero três zero para o Swissair 111.
  • Controle Halifax 22h19:39 - Okay, é o rumo contrário da aproximação para a zero-seis. Freqüência do localizador uno zero nove decimal nove. Você tem trinta milhas até a cabeceira.
  • SR111 22h19:53 - Uhhh... Nós precisamos de mais de trinta milhas. Por favor, informe novamente a freqüência do localizador oposto.
  • Controle Halifax 22h19:59 - Swissair 111 roger, curva a esquerda, proa três seis zero para perder alguma altitude, freqüência é uno zero nove decimal nove do localizador oposto, aproximação é do tipo back course.
  • SR111 22h20:09 - Uno zero nove decimal nove, curvando a esquerda para a proa norte, Swissair 111 heavy.
  • Controle Halifax 22h21:23 - Swissair 111, quando possível, informe o número de pessoas a bordo e quantidade de combustível, para informar as equipes de emergência.
  • SR111 22h21:30 - Roger, no momento combustível é dois três zero toneladas. Nós precisamos alijar algum combustível. Podemos fazer isso nesta área enquanto descemos?
Essa informação foi passada erroneamente pelo co-piloto. Na verdade, 230 toneladas era o peso total da aeronave naquele momento.
  • Controle Halifax 22h21:40 - Uh okay, eu vou autorizar. Vocês podem fazer uma curva para a proa sul ou preferem ficar mais próximos do aeroporto?
  • SR111 22h21:47 - Uh, aguarde, aguarde.
  • SR111 22h21:59 - Okay podemos voar na proa sul, para alijar combustível.
  • Controle Halifax 22h22:04 - Swissair 111 uh, roger, curva à esquerda proa dois zero zero graus. Informe quando pronto para alijar. Você estará a aproximadamente 10 milhas da costa, e aproximadamente 25 milhas do aeroporto.
  • SR111 22h22:20 - Roger, curvando a esquerda e descendo para 10.000 pés para alijar combustível.
  • Controle Halifax 22h22:29 - Okay, mantenha dez mil pés. Avisarei quando vocês estiverem sobre a água. Não falta muito.
  • SR111 22h22:34 - Roger.
  • SR111 22h22:36 - Você está no checklist de emergência. fumaça no ar condicionado?
  • Controle Halifax 22h22:42 - Uh Swissair 111, repita por favor?
  • SR111 22h22:45 - Ah, desculpe, o Swissair 111 estava falando aqui internamente. Desculpe a minha falha.
  • Controle Halifax 22h22:50 - Okay.
  • Controle Halifax 22h23:33 - Swissair 111 continue curva à esquerda proa uno-oito zero. você vai estar sobre a costa com mais 15 milhas.
  • SR111 22h 23:39 - Roger, esquerda proa uno oito zero, Swissair 111 e, ah, mantendo dez mil pés.
  • Controle Halifax 22h23:46 - Afirmativo.
  • Controle Halifax 22h23:55 - Você estará a aproximadamente 35, 40 milhas do aeroporto, caso tenha que retornar depressa.
  • SR111 22h24:03 - Okay, grato. Informe quando pudermos iniciar o alijamento de combustível.
  • Controle Halifax 22h24:08 - Okay. 


Soa então na cabine o alarme de piloto automático desconectado. O fogo no painel superior da cabine ganha intensidade e começa a afetar os circuitos elétricos, vitais para a operação da aeronave. As telas da cabine de comando apagam-se em rápida sucessão.


  • SR111 22h24:28 - Ah Swissair 111... Vamos ter de voar manualmente! Podemos voar entre 9 e 11 mil pés? 


A comunicação já deixa claro que os pilotos do vôo 111 não mais tinham capacidade plena de controle do avião: os sistemas elétricos, que abasteciam os monitores da cabine de comando com as informações vitais: as telas da cabine apagam-se em rápida sucessão. Os pilotos passam a contar apenas com os sistemas primários, redundantes (análogos), de emergência. O piloto automático não funciona mais.


  • Controle Halifax 22h24:38 - Swissair 111 pode voar entre cinco e doze mil pés sem problemas.
  • SR111 22h24:45 - Swissair 111 heavy está declarando emergência. Podemos voar. entre. doze e cinco mil pés. Declaramos emergência! Horário é zero uno (GMT) dois quatro!
  • Controle Halifax 22h24:56 - Roger.
  • SR111 22h24:56 - Onze heavy iniciando alijamento. precisamos pousar imediatamente.
  • Controle Halifax 22h25:00 - Swissair 111 mais algumas milhas e estarei com vocês.
  • SR111 22h25:04 - Roger. 


Em todas as transmissões, o controle de Halifax ouve nitidamente o som do alarme de auto-pilot desconectado. A situação na cabine de commando do MD-11 deteriora-se rapidamente. O co-piloto Loew repete a declaração de emergência.


  • SR111 22h25:05 - Swissair 111 heavy está declarando emergência!
  • Controle Halifax 22h25:08 - Entendido!
  • Controle Halifax 22h25:19 - Swissair 111 autorizado a alijar combustível. Informe quando tiver completado.
  • Controle Halifax 22h25:43 - Swissair 111 confirme autorizado a alijar combustível.
  • SR111 22h25:49 - Ahhh... nós...


Nesse momento, os gravadores de voz e de parâmetros de vôo do MD-11 param de funcionar. O fogo se alastra e destrói as conexões elétricas. O controle de Halifax chama repetidas vezes o Swissair, mas essa acaba mesmo sendo a transmissão final enviada e recebida desde o controle de Halifax. Os pilotos do MD-11 lutavam agora sozinhos, sem ajuda de solo. Voando sem instrumentos, numa noite escura, o gigantesco trijato sobrevoava a baixa altitude as pequenas cidades da costa canadense.

O comandante Zimmermann lutava para controlar o jato que voava às cegas. Com a máscara anti-fogo amarrada ao rosto, a cabine de comando totalmente desligada, a única maneira de tentar controlar o jato foi acendendo lanternas, tentando enxergar em meio à fumaça os poucos instrumentos análogos ainda funcionando. O jato então voava a 9.800 pés, pouco mais de 3.200m acima do mar.

Os minutos seguintes foram de grande agonia na cabine de comando. Por mais louvável que tenha sido a luta desesperada dos pilotos, somente um milagre poderia salvar os 229 ocupantes do Swissair 111. Por mais sete longos minutos, o Cmte. Zimmermann tentou lutar contra o fogo e a fumaça, que progressivamente eliminaram qualquer condição para a pilotagem. Sete minutos depois da interrupção da gravação, o HB-IWF mergulhou nas águas geladas do Atlântico norte, a 11 km da costa, no través de um pequeno vilarejo pesqueiro, Peggy`s Cove.

O jato bateu na água a 580 km/h, num ângulo pronunciado, o que deixa claro que não havia mais controle algum sobre o vôo. Tocando na água, o MD-11 explodiu numa fração de segundo, desintegrando-se completamente no impacto. O local da queda fica 56 km a sudeste do aeroporto de Halifax, para onde o jato conseguiria ter chegado com apenas mais 10 minutos de vôo.

Investigações do acidente SR 111

Na manhã seguinte, quando finalmente equipes de resgate localizaram o local da tragédia, apenas 18 corpos desfigurados boiavam na superfície, em meio a um campo de destroços de 4,5 km quadrados. Os restos mortais dos outros ocupantes afundaram junto com as quase 200 toneladas do MD-11 suíço. Quatro dias depois, as caixas pretas foram recuperadas no fundo do mar, a uma profundidade de 50m. Nas semanas subsequentes, 98% do peso total estrutural da aeronave foi içado do leito do oceano.

Investigações subsequentes por parte da TSB - Transportation Safety Board - do Canadá, confirmam que o fogo foi provocado pelo atrito e subsequente curto-circuito de fiação do sistema de entretenimento de bordo. Os fios superaqueceram, o material de isolamento pegou fogo e este propagou-se pelo material de isolação termo-acústica da cabine, que no caso deste MD-11 era de material inflamável, o MPET - Metallized polyethylene terephthalate (Tereftalato Polietileno Metálico). Este material ajudou a propagar o fogo na região superior da cabine de comando, numa região localizada um pouco adiante, sobre e um pouco atrás da parede que separa o cockpit da cabine de passageiros.

Nos meses seguintes, um acalorado debate seguiu-se ao acidente. Os críticos perguntavam: porque os pilotos do SR111 não procederam diretamente para pouso, mesmo com fumaça na cabine? É fácil criticar. Mas o fato é que Zimmermann seguiu o manual: o MD-11 ainda estava acima do peso máximo de pouso. Uma aterrissagem de emergência, acima do máximo peso permitido, poderia ser igualmente perigosa, colocando em risco seus ocupantes e danificando a aeronave.

A tripulação do jato suíço inicialmente transmitiu a mensagem internacional de urgência (Pan Pan Pan) e não a de emergência (Mayday), pois acreditou que haveria tempo para pousar o MD-11 com segurança, dentro dos limites máximos de peso. Sendo assim, Zimmermann optou por alijar combustível, mesmo sabendo que, à razão máxima de alijamento de 2,500 litros por minuto, o procedimento tomaria preciosos 17 minutos. Zimmermann seguiu as regras e, portanto, não pode ser condenado.

Mas não podemos deixar de pensar na angústia e tensão a que os passageiros do SR111 foram submetidos. Ficou comprovado que as luzes da cabine principal foram desativadas pelos tripulantes técnicos, como manda o procedimento de emergência. Em completa escuridão, os comissários tiveram de utilizar lanternas para instruir os passageiros nos procedimentos de preparação para amerissagem: muitos corpos foram encontrados vestindo os coletes salva-vidas.

Família inteiras, casais em lua de mel, executivos retornando para suas casas após viagens de trabalho. As histórias eram muitas e distintas, mas o final foi o mesmo para todos: em completa escuridão, passageiros e tripulantes do SR111 enfrentaram seus últimos e angustiantes momentos antes do encontro final com as ondas geladas do Atlântico Norte.

Fotos e Vídeo do Acidente



Desastre aéreo

Acidente aéreo

Desastre aéreo

Desastre aéreo


Fonte: Este relato foi extraído do extinto site Jetsite, do grande Gianfranco "Panda" Beting, com fins de não se deixar perder o conteúdo daquele fabuloso site, nossa principal fonte de referência no mundo da aviação nos anos 2000. O texto é do Panda, algumas fotos e vídeos colocamos a parte, para contribuir com mais dados e informações.